A classe médica brasileira e suas entidades representativas: Conselho Federal de Medicina (CFM), Associação Médica Brasileira (AMB) e Federação Nacional dos Médicos (FENAME), e os médicos em geral, estão muito preocupadas com a qualidade das Faculdades de Medicina (FM) e do Ensino Médico, que formam profissionais medíocres e despejam no mercado de trabalho, sem a menor condição de atendimento à população, de qualquer nível social.
Atualmente, somos vice-campeões mundiais em número de Faculdades de Medicina, temos 401 escolas médicas.
A Índia é a primeira colocada, com cerca de 450 faculdades, para uma população seis vezes maior do que a nossa, ou seja, 1 bilhão e 200 milhões de habitantes.
Na China, há 150 FM para 1,3 bilhão de habitantes; nos EUA há 131 FM para 320 milhões de habitantes.
Quando eu fiz o vestibular para medicina em janeiro de 1963, havia no país apenas 13 FM, nenhuma no Norte, por isso, tive que me deslocar para Fortaleza, onde existia uma FM, entre as dez melhores do país, fundada em 12 de maio de 1948.
Em 1997, tínhamos 85 Escolas Médicas; em 20 anos mais que triplicamos esse número, graças a explosão dos cursos particulares, que hoje, representam 75% do total, para beneficiar os empresários da saúde e da educação, a um custo mensal que varia de 10 a 16 mil reais.
Há 20 anos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP), realizou um exame teórico, facultativo, para formandos em medicina no Estado de São Paulo.
Apesar de a prova abranger temas gerais de grau intermediário de dificuldade, são reprovados mais de 60% dos alunos
Não é difícil explicar, senão vejamos:
1-No país não existem professores com formação acadêmica em número suficiente;
2-As instalações e os laboratórios de grande parte das FM, são inadequados para o ensino das cadeiras básicas;
3-A maior parte das FM autorizadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), não conta com hospitais-escolas dignas desse nome;
4-A expansão agravou a falta de vagas para a Residência Médica (RM), que hoje mal atende a metade dos formandos.
Alunos com preparo deficiente são reprovados nos concursos para a “Residência”, fase essencial para o aprendizado clínico e especialização.
Aí vivemos um paradoxo: enquanto os melhores alunos investem mais de 3 a 5 anos na formação, uma legião de despreparados vai atender gente doente.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), enfrenta o problema com o “Exame da Ordem”, sem o qual o bacharel em direito, não pode exercer a profissão.
Se a OAB, considera esse procedimento essencial, sem o qual o formado em Direito, não pode exercer a profissão, com muito mais razão deveria existir uma Lei semelhante para os formandos em medicina.
O mercado tem mecanismos para livrar-se do advogado incompetente, enquanto os médicos são liberados para a vida profissional, sem o menor controle de qualidade.
Por acaso quem vai ao Sistema Único de Saúde (SUS), ou sofre um acidente na estrada, pode selecionar o médico que vai atendê-lo?
O famoso argumento usado pelos empresários da saúde, de que temos um número insuficiente de médicos e que o aumento de vagas servirá para compensar essa falta, é infantil, a verdade que nossos médicos estão mal distribuídos, senão vejamos:
1-A julgar pela média do país, não estamos tão mal, veja: 2,1 médico por mil habitantes no Brasi; contra 2,5 nos EUA; 2,4 no Canadá e 2,2 no Japão.
O problema é que 60% dos médicos trabalham no Sudeste do Brasil, o triplo da Região Norte, no Estado do Maranhão há apenas 1,3 médico por habitante.
2-Nas capitais estão concentrados 60% dos profissionais; os demais ficam responsáveis por 5.543 municípios.
Quando eu concluí meu curso médico em 16 de dezembro de 1968, tínhamos pouco mais de 20 faculdades, formando em média 80 alunos por ano, todas com excelente corpo discente e boas instalações, com bons professores de elogiável saber médico.
Hoje em dia estamos formando cerca de 60 mil médicos anualmente, em cursos médicos de péssima qualidade.
Não conheço hoje, médico responsável, que não esteja preocupado com a qualidade dos profissionais que essas escolas de esquina de rua formam, medíocres, despejam no mercado de trabalho profissionais incompetentes, colocando em risco a vida e a saúde da comunidade.
Não conheço um só colega, que não seja a favor da avaliação obrigatória.
Duvido você, leitor consciente, que seja contrário.
A formação médica completa exige seis anos de curso em tempo integral e mais 3 a 5 anos da RM, especialização.
Depois de investir tanto tempo e recursos financeiros, quantos se interessarão em mudar para cidades pequenas, sem dispor de uma carreira organizada no serviço público, como acontece com os juízes, por exemplo, recursos técnicos e instalações mínimas para a prática da profissão?
De que cartola tiraram a ideia de que filhos de familiares em condição de pagar, em média, 10 a 16 mil reais por mês, estarão dispostos a abandonar as comodidades da vida urbana, para atender cidades ribeirinhas da Amazônia, lavradores no interior do Piauí ou conviver com a violência das comunidades periféricas das cidades grandes brasileiras?
Hoje não existe mais a vocação para ser médico, onde desde criança você era estimulado a seguir a carreira, por estímulo de algum familiar médico.
No meu caso, foi minha querida mãe que me estimulou, após ser salva de grave doença por um grande médico piauiense, Dr. Rocha Furtado, ex-governador do Piauí.
Agora, é só a família ter recurso, pagar alta mensalidade, e terá um “grande doutor” na família, como costumo observar nas rodas de conversas.
O CREMESP, a AMB, o CFM e a FENAME, propõem que os alunos de medicina, sejam submetidos a avaliações a cada dois anos, para que as falhas na formação sejam corrigidas a tempo. Os diplomados fariam o exame nacional obrigatório por Lei; os reprovados voltariam para cursos de reforço na FM em que estudaram.
Em pouco tempo, escolas com altos índices de reprovação seriam fechadas pelo MEC.
Se todos concordam que um exame de suficiência ajudaria a proteger a sociedade da incompetência de médicos malformados, quais interesses políticos e financeiros, impedem que a lei seja aprovada.
Recentemente o Ministério da Educação, informou que vai avaliar as escolas médicas com grau de avaliação 1 e 2, para tomar medidas para fechar certos cursos médicos, sem condições de funcionamento, e sendo um verdadeiro perigo a vida das pessoas inocentes e desprotegidas.
Dr. Juarez Carvalho|CREMEC-1053
Médico Ginecologista e Obstetra e ex-presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará