A profissão dos médicos, apesar das agruras atuais, continua fascinante, embora seja notícias maléficas, quase diárias, no noticiário nacional.
Ela atrai constantemente a atenção pública, que se situa entre extremos de admiração, louvor e respeito de um lado e desconfiança ou mesmo hostilidade do outro.
Suporta com estoicismo as farpas dos mais ilustres escritores, configuradas na celebre frase de Voltaire: “O médico eficiente é aquele que distrai o paciente, enquanto a natureza cura”.
De um modo geral, conseguiu-se que, analisados os aspectos favoráveis e contrários, os pontos de vista pró ultrapassassem os desfavoráveis e resultassem na proeminência social da profissão.
Em maioria, o povo ainda reconhece no médico aquele que lhe estende a mão quando necessita de ajuda material e ou espiritual, agindo como guardião de sua saúde e bem-estar, exercendo uma autoridade específica à vida e à doença.
Entre as profissões se destaca por ser uma das poucas cujo carisma é institucionalizado.
Apesar de nossas raízes religiosas, o símbolo do carisma médico continua sendo o secular Juramento de Hipócrates, preservado desde os tempos dos curandeiros pré-cristãos e sobrevivendo como fonte de autoridade até os dias de hoje.
No Brasil códigos e conselhos têm origem no Estado Novo, permanecem atados ao Ministério do Trabalho, e suas ligações com o corporativismo são notórias.
O jovem médico, ao se formar, entra na confraria através do juramento de Hipócrates, assumindo compromissos, em nome de Apolo e de Esculápio, de levar uma vida pura e santa, e com esse voto simbólico assume autoridade carismática, quando começa a prática da Medicina.
Os primeiros médicos eram artífices ou artesãos independentes e autônomos; vendiam os seus serviços aos poderosos e ricos.
Os pobres nasciam, ficavam doentes e morriam sem assistência do médico.
Com a evolução da sociedade, o trabalho do médico tornou-se necessário para manter sadia a força de trabalho ou os recursos humanos, responsáveis pelo acúmulo de riquezas, para evitar epidemias ou endemias que poderiam afligir as camadas dirigentes.
Com a tecnologia médica, uma nova ciência surgiu, fazendo com que o exercício da profissão passasse a exigir, cada vez mais, fatores estranhos à pura relação médico-paciente.
A relação pessoal transformou-se em relação médico-máquina-paciente.
Em outras palavras, o exercício da medicina assegurado pela sociedade, que conferiu aos médicos o domínio legal sobre a saúde e a doença, ficou condicionado aos interesses de preservação da estrutura social vigente.
O sistema e a estrutura social saem reforçados porque enquanto a medicina tecnológica pouco se preocupa com as causas sociais das doenças, a atenção primária, mais barata e mais eficiente, traz a lume, a cada momento, as causas socioeconômi-cas da morbidade e da mortalidade.
Em relação a fome e a miséria, no Brasil 25% das mortes ocorrem entre zero e um ano de idade, 25% entre um e 50 anos e os restantes 50% após os 50 anos.
No nordeste e norte morrem mais crianças de zero a um ano do que adultos acima dos 50.
No Brasil a mortalidade infantil gira em torno de 100: 1.000, mas em muitas regiões ela ultrapassa 300: 1.000, comparando-se com os países mais atrasados da África.
Fome, miséria e subnutrição não são problemas que melhorem com medidas tecnológicas médicas ou que respondam a medidas médicas de prevenção.
A subnutrição quando não mata nos primeiros anos de vida, cria uma geração de mutilados físicos, não crescem e não se desenvolvem e apresentam graves problemas cerebrais.
A grande maioria da população brasileira urbana e rural é pobre e ganha menos de um salário por família.
Para combater a mortalidade infantil, desnutrição, as doenças infecciosas que elas acarretam, a desi-dratação e a diarreia, a solução não é médica.
Ela exige uma nova ordem internacional.
As deficientes condições sanitárias das grandes e pequenas cidades brasileiras e da zona rural são uma constante, comprometendo consideravelmente as condições de existência de nossa população.
Finalmente, a medicina tecnológica tem sido para muitos doentes um martírio.
Quando passam para o domínio médico sofrem uma série de exames invasivos e dolorosos.
O ensino eminentemente tecnológico faz com que o médico, depois de formado, tome decisões que se fundam num excesso de exames complementares.
Os jovens médicos pedem mais exames e prescrevem mais drogas do que os idosos, e frequentemente sua orientação depende da relação que mantém com o resto da comunidade médica.
Sua atitude procura conformar-se às normas de outros médicos, mais do que às expectativas do paciente.
Daí a tendência de hiperdiagnosticar, mesmo que isso não resulte em qualquer benefício.
No campo da terapêutica a regra é intervir, e não se omitir, a terapêutica nada mais é que uma toxologia fracionada.
A relação humana entre o médico e o paciente está desaparecendo. Hoje é a máquina que comanda.
Os hospitais que abrigam os pacientes são profun-damente impessoais. As inovações tecnológicas substituíram os cuidados humanos, e assim, as frustrações citadas transferiram as esperanças dos doentes para a medicina alternativa.
Todas as tentativas de reforma do sistema médico são meramente remendos que estamos costurando.
Os problemas existem, remendar não adianta, mas algumas perspectivas de ação podem ser apontadas
Uma delas é a denúncia das contradições que geram as doenças, a outra é a luta por um sistema médico socializado que pode contribuir para uma luta maior por uma sociedade mais justa e mais igualitária.
A Medicina está doente, o sistema de assistência médica, moribundo, e a saúde da população comprometida com o sistema econômico que só visa o lucro.
O que é preciso é discutir, levar essas questões ao foro público, denunciar todo pensamento autoritário e obscurantista, tornando a Medicina uma ciência humana e popular.
Dr. Juarez Carvalho |CREMEC-1053